Distribuidora de bebidas, restaurante e escolinha: a reconstrução da família de Marcelo | futebol

Pai de Marcelo usou 2017 para a reconstrução financeira da família  (Foto: Paulo Manoel da Silva/Arquivo Pessoal)Pai de Marcelo usou 2017 para a reconstrução financeira da família  (Foto: Paulo Manoel da Silva/Arquivo Pessoal)

Pai de Marcelo usou 2017 para a reconstrução financeira da família (Foto: Paulo Manoel da Silva/Arquivo Pessoal)

Um ano de tristeza, dor e saudade. As famílias das vítimas do acidente aéreo com a delegação da Chapecoense em Medellín passaram a conviver com estes sentimentos desde o dia 29 de novembro de 2016. No entanto, além do luto e da ausência de seus entes queridos, os familiares de atletas e integrantes da comissão técnica precisaram reconstruir a vida também financeiramente.

Em Minas Gerais, a família do zagueiro Marcelo encontrou no sonho do filho um incentivo para superar a tristeza e as dificuldades do dia a dia após a perda do atleta. Utilizando parte do valor de indenizações, seguro e renda dos amistosos da Chapecoense em memória das vítimas da tragédia, o pai do jogador fundou um instituto, abriu uma distribuidora de bebidas, um restaurante e criou uma escolinha de futebol, núcleo da Chapecoense em Juiz de Fora, cidade natal de Marcelo.

Muitos podem pensar que o empreendedorismo só aconteceu em razão da morte do jogador. Porém, Paulo Manoel da Silva afirma que investir em outros negócios era o objetivo do filho desde que ele iniciou a carreira, em que defendeu Volta Redonda, Flamengo e Chapecoense. De acordo com Paulo, as dificuldades de tocar os negócios existem, mas são superadas com a ajuda de amigos.

Espaço é a sede do núcleo da Chapecoense em Juiz de Fora (Foto: Paulo Manoel da Silva )Espaço é a sede do núcleo da Chapecoense em Juiz de Fora (Foto: Paulo Manoel da Silva )

Espaço é a sede do núcleo da Chapecoense em Juiz de Fora (Foto: Paulo Manoel da Silva )

– Este projeto era combinado com o Marcelo. A gente vai tocando, as coisas vão dando certo e errado. Se der problema, a gente conversa com quem entende. Não somos experientes em empreender, mas temos amigos no mundo da bola e vamos vencendo. Era um propósito da nossa família, só demos continuidade – falou Paulo, que no ano passado terminou de construir a casa própria, custeada pelo filho.

Sem CNPJ, a mola mestra para Paulo e a família abrirem a distribuidora de bebidas, o restaurante e planejar a escolinha da Chapecoense foi a fundação do Instituto Marcelo Augusto. A partir daí, o passo seguinte foi reunir o capital para colocar os negócios em funcionamento e trazer pessoas para trabalhar. Uma delas é a filha mais jovem. Segundo Paulo, Raquel teve problemas para superar a perda do irmão. De acordo com ele, o fato da garota ajudar no restaurante contribuiu para a recuperação do trauma pela morte de Marcelo.

Marcelo custeou a construção da casa de sua família no bairro Jardim Natal, em Juiz de Fora  (Foto: Raphael Lemos)Marcelo custeou a construção da casa de sua família no bairro Jardim Natal, em Juiz de Fora  (Foto: Raphael Lemos)

Marcelo custeou a construção da casa de sua família no bairro Jardim Natal, em Juiz de Fora (Foto: Raphael Lemos)

– Com certeza. A minha filha caçula teve muitos problemas, não falava com ninguém. Nem psicólogo dava jeito. Comecei a trazer ela para perto de mim, para fazer parte dos trabalhos. Ela ajuda no restaurante e nas festas que a gente organiza. Ela está envolvida em tudo, tem talento. Isso a ajuda, e a Raquel nos ajuda. Foi um ano complicado, tive muitos problemas familiares, principalmente por assuntos da cabeça. Praticamente tive que ser um psicólogo pra eles. E a gente foi carregando, fazendo esta dosagem entre momentos de alegria e tristeza para encarar o dia a dia – contou.

“Perdi um filho, mas ganhei outros”, diz pai de Marcelo, que investiu cerca de R$ 70 mil nos empreendimentos.

Paulo afirma ter investido cerca de R$ 70 mil só para iniciar os trabalhos. Dentre os obstáculos para começar os empreendimentos estavam os trâmites burocráticos. Sineia Canuto é amiga pessoal de Paulo, que é padrinho de casamento da responsável pela administração dos negócios. Na visão dela, a amizade com a família e o propósito de realizar o sonho de Marcelo a incentivaram a aceitar o convite.

– O convite foi muito especial, porque o Paulo chegou para falar do projeto e disse que escolheria os profissionais a dedo. Este era um sonho do Marcelo e eu não queria deixar morrer. É um prazer muito grande, imenso. Eu tenho uma bagagem nesta parte administrativa. Trabalhei 20 anos com isso, em escritório, parte financeira, documentação, papelada necessária para abrir este tipo de negócio. Temos acompanhamento deu uma contadora que nos orienta – afirmou.

Escolinha da Chapecoense em Juiz de Fora  (Foto: Bruno Ribeiro)Escolinha da Chapecoense em Juiz de Fora  (Foto: Bruno Ribeiro)

Escolinha da Chapecoense em Juiz de Fora (Foto: Bruno Ribeiro)

Na distribuidora de bebidas, Paulo tem quatro funcionários que trabalham na venda e entrega de mercadorias para pessoas e bares de Juiz de Fora. O restaurante e as dependências da escolinha, chancelada pela Chapecoense e inaugurada em agosto de 2017, funcionam em um clube arrendado pela família. O pagamento dos quatro funcionários do restaurante e dos 11 profissionais do núcleo da Chape é de responsabilidade de Paulo, que fica durante boa parte do dia no núcleo. Ele diz que não é fácil conviver no futebol e não lembrar de Marcelo. Porém, ele crê que ajudar no futuro de outros jovens é um consolo.

– A pior parte é ver tudo que o Marcelo projetou dando certo e ele não estar aqui para ver isso. É doloroso, porque vem muitas lembranças, até pelas homenagens. E foi muito triste. A gente fica pensando, recordando e é difícil. Mas temos este projeto, que nos incentiva muito. Eu perdi um filho, mas ganhei outros – disse.

Um deles é Luís Henrique da Silva. O atacante de 18 anos é um dos 30 alunos da escolinha, que cobra uma taxa dos garotos para manter sua estrutura. De acordo com ele, Marcelo é um exemplo, não só por ter se tornado profissional, mas por pensar em ajudar a família e ao próximo.

– É um novo começo. Me dedico muito, todo dia correndo nos treinos, focado. O trabalho é pesado, mas o futuro será brilhante para honrar o Marcelo. Ele tá vendo lá do céu e me dará força pra eu chegar até o meu objetivo.

Garotada do núcleo da Chape em Juiz de Fora. À esquerda, atrás de Paulo, Luís Henrique é um dos alunos (Foto: Reprodução/TV Integração)Garotada do núcleo da Chape em Juiz de Fora. À esquerda, atrás de Paulo, Luís Henrique é um dos alunos (Foto: Reprodução/TV Integração)

Garotada do núcleo da Chape em Juiz de Fora. À esquerda, atrás de Paulo, Luís Henrique é um dos alunos (Foto: Reprodução/TV Integração)

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