Em campos desalentadores, os rohingyas sofrem de forma impossível de se imaginar

Balukhali, Bangladesh – Com lama até os tornozelos, centenas de refugiados rohingyas brigavam para chegar à frente da multidão, do lado de fora do acampamento improvisado. Um caminhão com carroceria aberta passava. Nele, vários voluntários de Bangladesh atiravam doações: pequenos sacos de arroz, uma camiseta desbotada do Bob Esponja, um jogo de garfos sujos.

Famílias inteiras enfrentavam a chuva na esperança de pegar qualquer coisa que conseguissem. Um menino que não aparentava nem seis anos se espremeu na multidão e alcançou uma calça jeans masculina de tamanho adulto que foi lançada. Ele ainda teve que lutar com um menino mais velho antes de escapar com seu prêmio.

Já havia mais de 200 mil imigrantes da etnia rohingya presos em campos como esse, chamado Balukhali, no sul de Bangladesh. Mas, no mês passado, foi reportado que pelo menos mais 500 mil pessoas haviam migrado. Esse número, considerado mais da metade da população rohingya de Mianmar, superou até mesmo o pior mês da maré de refugiados da guerra síria.

Enquanto líderes internacionais discutem a possibilidade de punir o Mianmar pela matança metódica e pelo desenraizamento de civis rohingya, essa massa de refugiados recém-chegada está vivendo em condições abjetas e desesperadoras.

Não é um acampamento por definição, mas mais uma densa aglomeração de bambus e lonas. Quando visitei o local, crianças vagavam na lama à procura de comida e roupas. Há preocupação com cólera e tuberculose. Sem sanitários, o que resta da floresta se tornou um grande banheiro improvisado.

O fluxo de refugiados diminuiu consideravelmente, mas as organizações de ajuda humanitária ainda estão sobrecarregadas.

“Chegamos a um ponto que era impossível imaginar. Todos estão espremidos em um pequeno pedaço de terra. Não conseguimos acompanhar o crescimento da demanda”, afirmou Kate White, gerente da emergência médica da Médicos sem Fronteiras em Bangladesh.

Durante décadas, os muçulmanos rohingyas de Mianmar, minoria concentrada no estado de Rakhine, enfrentaram a repressão sistêmica da maioria budista do país e particularmente dos militares. Mas, o que aconteceu em agosto, quando hordas militares e aliadas começaram a queimar aldeias rohingyas inteiras, foi tão grave que a ONU já está chama o episódio de limpeza étnica.

Através dos campos, todos os refugiados têm casos de crueldade e fogo para contar.

Anwar Begum, 73, sentada no chão, tinha o braço pendurado abaixo do cotovelo. Ela estava em constante dor e mal conseguia focar o olhar. O exército, ela me contou, ateou fogo à sua vila em Mianmar e arrancou as pessoas de lá. Enquanto os civis fugiam, um soldado começou a empurrá-la, dizendo: “Você não é bem-vinda em Mianmar” e quebrou seu cotovelo com uma coronhada de rifle. A família a arrastou para fora e o soldado ainda disse uma última coisa: “Leve essa coisa para Bangladesh”.

O que antes eram acampamentos espalhados se tornou uma ampla aglomeração. Trechos de floresta têm sido derrubados para dar lugar a pequenas cidades de cabanas feitas de lona preta barata, cobertas de lama. todo acampamento, homens constroem as habitações emergenciais o mais rápido que podem.

Cada posto de tratamento médico aqui tem uma fila que serpenteia a volta do campo. Os médicos locais e organizações de ajuda externa, como a Médicos sem Fronteiras, estão lutando para fazer mais clínicas, mas dificilmente conseguem manter o ritmo necessário.

Com apenas uma estrada principal ligando a maior parte do distrito, grupos humanitários lutam para alcançar os campos mais remotos. Em Taink Khali, uma caminhada de quase 30 minutos da estrada principal, uma agência de ajuda australiana, a Disaster Response Group, montava uma clínica móvel dentro de uma pequena cabana. Dezenas de mulheres e crianças esperavam calmamente sob o sol quente.

“Somos o primeiro socorro ao qual essas pessoas têm acesso”, disse Brad Stewart, gerente de operações do grupo de ajuda, a organização de assistência médica que na maioria das vezes atende mochileiros no Nepal. Sua equipe, composta por quatro ex-militares australianos, pendurava, com fita adesiva, um recipiente de desinfetante de mãos em uma árvore.

“A atenção imediata vai para os campos melhor estabelecidos. Aqui, somos apenas uma gota em um balde grande”, desabafou.

As centenas que ainda se deslocam enfrentam uma travessia perigosa de barco pelo rio da fronteira em direção a Bangladesh. No fim do mês passado, dezenas de rohingyas, muitas crianças entre elas, foram mortas quando um barco de pesca que as transportava naufragou no Golfo de Bengala.

Seus corpos apareceram na Baía ao lado de alguns sobreviventes.

“As mulheres e as crianças não sabiam nadar”, disse Nuru Salam, 22. Ele tentava cruzar com toda a família, quando o barco virou no mar. Seu filho morreu e ele esperava encontrar o corpo da mulher. “Ainda há muitos corpos aparecendo.”

Os desafios físicos aqui são bastante duros. Mas a crise dos rohingya abalou toda a região, exacerbando desgastes políticos e sectários e piorando o relacionamento dos vizinhos Bangladesh e Mianmar.

Essa não é a primeira onda de rohingyas que Bangladesh recebe. Em 1978, cerca de 200 mil deles fugiram para cá. A maioria retornou a Mianmar depois que os governos elaboraram um acordo de repatriação. Outro influxo ocorreu na década de 1990, um em 2012 e mais em outubro de 2016.

Mesmo antes deste último êxodo de Mianmar, a pressão colocada sobre Bangladesh, país já pobre, foram consideráveis. Ainda assim, alguns dos moradores mostraram uma bondade notável.

“Eu vejo que a comunidade que está acolhendo tem sido incrivelmente positiva”, disse Karim Elguindi, chefe do escritório do Programa Mundial de Alimentos em Cox Bazar, Bangladesh. “Ainda estou surpreso com a resposta humanitária do governo e de toda comunidade.”

Mesmo possuindo mais campos do que é capaz de administrar, o governo de Bangladesh ainda corre para converter mais 4 mil hectares de terra em assentamentos para os recém-chegados. Mas um relatório de uma rede de agências da ONU advertiu que os refugiados rohingyas chegavam antes de qualquer infraestrutura adequada. As autoridades locais começaram a limitar a circulação dos refugiados aos campos, fixando postos policiais para impedir a saída.

No mês passado, um ministro de Bangladesh disse que o governo não pretendia dar o status de refugiados aos rohingyas recém-chegados – uma postura que dificulta os esforços para obtenção de mais ajuda. O governo de Bangladesh declarou que espera que Mianmar acabe aceitando os rohingyas de volta.

O governo de Mianmar, por sua vez, disse que repatriaria aqueles que tivessem a documentação correta, provando que são de Rakhine. É improvável que a maioria dos rohingyas que acabaram de fugir para Bangladesh tenha trazido tais papéis, isso se já tiveram uma documentação do tipo.

Até agora, a maior parte do esforço de ajuda recaiu sobre grupos de voluntários de Bangladesh. Tocados pelas histórias que viram na televisão local, muitas pessoas em todo o país começaram campanhas de doação e dirigiram longas distâncias para dar o que podiam aos refugiados.

“Não podíamos ficar parados em casa”, disse Abul Hossain, voluntário que vive a seis horas ao norte dos campos. “Pedimos doações a todos na nossa vila. Dirigimos a noite toda para trazer tudo para cá.”

Hossain e seus vizinhos esperavam entregar as doações para funcionários do governo ou para organizações estrangeiras de ajuda, como a ONU, mas disseram que não conseguiram entrar em contato com ninguém.

“Estamos dirigindo por aí desde a manhã, procurando alguém que possa se encarregar disso tudo. Agora decidimos que nós mesmos é que vamos entregar as doações”, disse ele.

Perto de seu caminhão, na entrada do acampamento, Hossain descarregou alguns dos itens enquanto as filas cresciam ao redor dele.

“Esperamos que essas pessoas retornem para casa um dia. agora iremos ajudá-los – eles são nossos irmãos e irmãs”. Em seguida, levantando seu dedo indicador, e acrescentou: “Mas talvez não para sempre”.

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