Fleischer, da UnB: Para Alckmin, é o momento do tudo ou nada

Descartado das eleições de 2018, o apresentador Luciano Huck deixa livres de 5% a 8% das intenções de voto, segundo a última pesquisa Ibope, de outubro. O movimento acompanha o enfraquecimento de outro dos outsiders, o prefeito João Doria (PSDB), que na mesma pesquisa tem 5%, mas perde força a cada sondagem. Em teoria, seriam pontos preciosos para uma coligação de centro, em que Geraldo Alckmin (PSDB) seria o nome mais forte hoje. A prática, contudo, é diferente.

Chamuscado pela falta de carisma e pelo rosto carimbado pelos anos de política, os pontos podem se esvair para o nulo ou buscar outro nome de fora do mainstream político. Nome este, indefinido por hora. “a próxima pesquisa Datafolha deve sair em dezembro. Será a hora de ver se Alckmin ganha corpo sem Huck e sem Doria”, diz o cientista político e professor da Universidade de Brasília David Fleischer. “Será a chance de ver se ele é viável para compor a aliança de centro ou morre na praia”.

Em entrevista a EXAME, o acadêmico explica os próximos passos da corrida eleitoral e as consequências do derretimento dos outsiders colocados para a campanha de 2018. Veja abaixo os melhores trechos da conversa.

A saída de Luciano Huck da disputa presidencial tira mais um outsider da eleição em um cenário teoricamente favorável aos que vem de fora do mainstream. que isso acontece?

Entre Doria e Huck são razões diferentes para se retirar. Huck ficou temeroso em desgastar sua imagem agora. Perder a globo é complicado, a emissora foi muito dura em ameaçar isolá-lo. O casal deve ter ponderado que seria muito arriscado. O salário dos dois é fantástico. Doria percebeu a força do Alckmin, principalmente dentro do partido. Alckmin se tornou salvador da pátria para o PSDB, que estava muito rachado. Doria ainda pensa em ser candidato a governador, mas há concorrentes fortes no partido, como José Serra. Mas pode pintar outro outsider que nem se cogita. A política é sempre cheia de surpresas. Se Lula for escanteado — e tudo indica que o TRF-4 vai manter a condenação —, a eleição fica de pernas para o ar. Nesse contexto, com uma leitura melhor, deve haver entradas de novos nomes. Bolsonaro é o único que está firme. Tanto que Alckmin sinalizou a criação do ministério da Segurança Pública, uma forma de tirar votos de Bolsonaro. Ainda tem alguns fatos no futuro próximo que vão desenhar melhor o que vai acontecer. É chato porque não dá para antecipar com os parâmetros que temos. Pode vir alguém novo, endinheirado, e que tem até março para escolher um partido. É o marco zero para um outsider. É um prazo mais curto, mas possível.

É possível formar uma liderança política com potência até março?

Sim, mas é complicado. Em 1989, faltando um mês para a eleição entrou o Silvio Santos. Foi um barulho enorme. Com todo o potencial midiático, com propaganda de TV muito melhor que o de Collor virou uma campanha assustadora. Subiu tanto nas pesquisas que superou o Collor. Acharam um jeitinho de tirar ele. Mas é o exemplo de um outsider que entrou com dinheiro e força de mídia. Silvio era uma personagem muito conhecida. Ainda é, mas era mais que hoje, então decolou muito rapidamente. Não sei se é possível repetir um Silvio Santos, mas conforme as condições e, principalmente, descrença que o eleitorado tem com a classe política tradicional, um outsider com rosto novo, com apoio midiático e dinheiro, poderia decolar da mesma forma. O próprio Enéas Carneiro, em 1994, foi terceiro lugar. Não chegou ao segundo turno, mas foi outro desempenho assustador. Bateu Quércia em São Paulo e Leonel Brizola no Rio, mesmo com pouquíssimo tempo de TV.

Mas há pontos em comum entre essas eleições e agora?

Em 1989 e 1994, a novidade era ter eleição. O ódio com a classe política é mais recente. O ponto é que caras novas, ficha limpa e endinheirados podem surpreender. É o caso do João Amoêdo, do Partido Novo.

A onda dos outsiders ainda é forte? No Chile, por exemplo, Piñera lidera. Angela Merkel segue firma. Trump e Macron não foram ponto fora da curva?

Não. O Chile pode ter uma virada no segundo turno. Merkel perdeu algum apoio, mas as alianças estão se refazendo em torno do poder — melhor governar junto que ficar de fora. Mas é um país com economia ajeitada. É outra realidade. Nosso eleitorado está cansado das velhas caras da política, assim como estava o eleitorado francês. A diferença é que, por enquanto, Macron preencheu muito bem esse espaço, com técnica estupenda de campanha. O eleitorado brasileiro está na mesma página, mas não há um nome de convergência.

A falta de nomes é por conta de um ambiente que se tornou tão corrosivo que não querem botar a cara?

Temos partidos muito fracos e sem programa. Então, ninguém se adianta em entrar na política pela forma de pensar, pelas ideias. Como a eleição tende a ser personalista, o cara que é interessado em entrar na política pode estar esperando para ver a melhor estratégia de entrada. É um momento de avaliação do custo-benefício, esperar para ver a tramitação da reforma da Previdência para entender como se posicionar nessa agenda, se terão ou não Lula como oponente, etc. É entender que país terá na mão. Quando esses episódios forem se resolvendo, será a hora de fazer o último filtro. É a mesma lógica de atuação dos investidores.

Com a rejeição à política, o que acontece se os nomes do mainstream forem os consolidados para 2018?

A questão chave é uma só: vai depender se alguém consegue costurar boa coligação de centro e apoio de políticos centristas. O novo programa do PSDB diz que a tendência é um perfil de centro-esquerda. O DEM tenta compor na centro-direita. A Marina e a Rede estão perdidos, não vejo alianças possíveis para ocupar o espaço. Ciro Gomes não sabe se vai com Lula ou não. Álvaro Dias não deve ter força, é uma boa aposentar. Se ninguém conseguir, favorecem os extremos, com Lula que caminha para a esquerda e Bolsonaro na direita.

Quando a eleição vai se tornar minimamente previsível?

Creio que o fiel da balança é a resolução do caso do tríplex de Lula. O processo no TRF-4 deve ser resolvido em abril ou maio, até antes. Deve ser o ponto de encruzilhada, em que se define quem disputa ou não e em que espectros políticos. Outro ponto de atenção que está mais próximo: a próxima pesquisa Datafolha deve sair em dezembro. Será a hora de ver se Alckmin ganha corpo sem Huck e sem Doria. Será a chance de ver se ele é viável para compor a aliança de centro ou morre na praia.

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