Quem é Andreas Hollstein, o autarca que recebeu mais refugiados do que era suposto e foi esfaqueado?

Não era a primeira vez que alguém o interpelava para criticar a decisão que tomara em 2015 de receber mais refugiados do que aqueles que deveriam ter chegado à cidade de que é autarca, Altena, no oeste da Alemanha. Durante meses e meses, Andreas Hollstein recebera chamadas de residentes a queixar-se dos refugiados, ou porque faziam muito barulho, ou porque não sabiam ou não queriam separar o lixo. Pessoas conhecidas, e que ele sabia terem votado nele em mais do que uma ocasião desde 1999 (ano em que chegou, pela primeira vez, à câmara da cidade alemã) haviam deixado de o cumprimentar na rua. Mais grave do que isso, eram as ameaças de morte anónimas que com alguma frequência ia recebendo. isso, quando, na segunda-feira à noite, enquanto jantava num restaurante de kekabs na cidade, foi interpelado por um homem que criticou a sua política municipal de apoio aos refugiados, Andreas Hollstein não estranhou.

Visivelmente alcoolizado (segundo viriam a contar posteriormente algumas testemunhas), o homem começou por perguntar a Hollstein se era ele o líder do município. Face à resposta afirmativa, o agressor, munido de uma faca com uma lâmina de 30 centímetros, atacou o autarca na garganta, tendo depois também ferido um empregado de mesa. Apercebendo-se da situação, o dono do restaurante, assim como o seu filho, conseguiram imobilizar o agressor, que acabaria por ser detido pelas autoridades. Andreas Hollstein, por sua vez, foi assistido no hospital local e teve alta poucas horas depois. O ataque ao autarca, que é membro do partido conservador (CDU), foi condenado por Angela Merkel. A chanceler alemã afirmou-se “horrorizada” pelo que aconteceu, numa mensagem publicada no Twitter. Também Henriette Reker, a presidente de Câmara de Colónia que em outubro de 2015 foi atacada, com uma faca, por um apoiante da extrema-direita que protestava contra a chegada de imigrantes que pediram asilo, condenou o incidente: “Um ataque como este pode mudar a vida de qualquer pessoa. Temos de continuar a enfrentar os nossos desafios com abertura e força – porque o ódio e a violência não são a solução, são o problema”, lê-se no comunicado divulgada pela autarca e citado pelo britânico “The Guardian”.

Uma iniciativa que valeu elogios, críticas e um prémio

Neto de um imigrante que chegou à Alemanha, há vários anos, vindo da Lituânia, Andreas Hollstein tornou-se conhecido para lá dos cerca de 45 km2 de Altena quando, em 2015, e para fazer face aos problemas de desertificação que a sua cidade enfrentava, fez questão de receber mais refugiados além do que era suposto. Nessa altura, chegaram então à cidade 284 imigrantes. A “Quartz” foi uma das publicações que se interessou na altura pelo autarca e pela sua estratégia. Num artigo publicado em 2016, a publicação online sublinhava o impacto que os novos habitantes poderiam ter numa cidade que, além de desertificada (passou de 22 mil habitantes em 1999 para menos de 17.500 em 2016) enfrentava graves problemas de desemprego. O encerramento, em 2008, de uma fábrica da Nokia situada ali perto fora letal. Mais de 2300 pessoas ficaram sem emprego. A iniciativa de Andreas Hollstein só poderia, portanto, ter sido bem recebida. E até foi (o autarca recebeu em maio deste ano o Prémio de Integração Nacional). Mas houve quem não tivesse ficado contente. Como é o caso do homem que, na segunda-feira à noite, o agrediu.

Antes de exibir a faca que tinha na mão, o agressor, entretanto identificado pela polícia como sendo Werner S, gritou-lhe: “Tu deixaste-me morrer de sede mas trouxeste 200 refugiados para Altena”. Embora a polícia tenha garantido que o homem não tem ligações a qualquer grupo de extrema-direita – e que lhe foram, no passado, diagnosticados “problemas mentais” – Armin Laschet, governador do estado da Renânia do Norte-Vestefália, afirmou que as forças de segurança consideraram o ataque “politicamente motivado”.

Apesar do susto, Andreas Hollstein não pretende deixar as suas funções – ou interrompê-las – nem usufruir de proteção policial, conforme afirmou já esta terça-feira. “Manterei o meu compromisso para com as pessoas, sejam elas residentes ou refugiadas, estejam elas protegidas socialmente ou não estejam”.

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