Saúde é o principal pedido de romeiros que lotam Belém no Círio de Nazaré

NAIEF HADDAD, ENVIADO ESPECIAL

BELÉM, PA (FOLHAPRESS) – Quando decidiu caminhar os mais de 350 km que separam Salinópolis, no Pará, da capital do Estado, Belém, Lydiane Silva, 39, sabia que enfrentaria dois obstáculos principais. Ao viajar sozinha, estaria mais vulnerável a crimes, como furtos. Além disso, haveria um enorme desgaste físico até chegar às festividades do Círio de Nazaré.

A obsessão em cumprir uma promessa a Nossa Senhora de Nazaré venceu o que havia de receio. Com apenas um ano e sete meses, Luana, a filha caçula de Lydiane, sofreu uma forte reação alérgica, que chegou a deixá-la em coma. Há sete meses, Luana passou por um transplante de medula no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

Nos últimos três dias, a reportagem ouviu pelo menos três dezenas de romeiros, vindos de outras cidades do Pará e de Estados como o Maranhão. Há quem participe do Círio de Nazaré para pagar promessas de emprego e aprovação no vestibular, mas a saúde de familiares é, de longe, o tema mais comum entre os relatos.

Mãe de quatro filhos, Lydiane se comprometeu com a santa que andaria até Belém se a caçula se recuperasse. Foi o que ela fez ao longo de duas semanas. Nesse período, não foi assaltada, mas pelo caminho alguém jogou uma pequena pedra no seu rosto -por intolerância com os chamados “promesseiros”, ela supõe.

No sábado (7), às 14h, quando a Folha de S.Paulo falou com ela pela primeira vez na Casa de Plácido, local que acolhe os romeiros no centro da cidade, Lydiane também contou que quatro tênis ficaram inutilizados pelo caminho. Era o menor dos seus problemas.

Com os pés enfaixados, ela disse que toda a pele das solas havia soltado ao longo da caminhada, além de ter perdido duas unhas. Apesar das dores nos pés e nas pernas, Lydiane estava decidida a ir à Trasladação, romaria pelas ruas de Belém no sábado no fim da tarde, e também à mais importante procissão da série de eventos religiosos na cidade, o próprio Círio de Nazaré, que acontece sempre no segundo domingo de outubro.

Atualmente nove romarias compõem as festividades, que têm reunido centenas de milhares de pessoas todos os anos. A cerimônia acontece na cidade desde 1793.

“Não consigo fazer nada sem que a Nossa Senhora me acompanhe”, diz Lydiane, que mantém uma pequena pousada na praia de Atalaia, em Salinópolis.

Neste domingo, a reportagem reencontrou Lydiane às 5h30, quando o sol ainda não tinha nascido em Belém. Ela contou que havia conseguido participar de toda a Trasladação, procissão que durou cinco horas, e se preparava para o Círio de Nazaré, que começaria às 6h, meia hora depois.

Quando bem-sucedidas, na avaliação dos devotos, as promessas feitas à Nossa Senhora de Nazaré não são pagas apenas com caminhadas de dezenas ou centenas de quilômetros.

Talvez a incumbência mais famosa entre os católicos da região Norte do país seja acompanhar a procissão segurando a corda. São, na verdade, cinco trechos de corda de longa espessura. Ao fim dessa sequência, vem a imagem da santa, conduzida por dezenas de fiéis.

Aliás, a passagem da imagem de Nossa Senhora sempre representa o ápice das procissões, assim como da romaria fluvial e da romaria das motos -estas duas últimas sempre aos sábados. Nesta edição, a fluvial recebeu mais de 400 embarcações, entre barcos, lanchas e jet-skies.

A CORDA E OS JOELHOS

Como muitos “promesseiros” querem segurar a corda durante as procissões e não há espaço para todos, o empurra-empurra é mais frequente do que se costuma imaginar ao acompanhar o evento pela TV. Em um mesmo trecho de uma avenida de Belém, em um intervalo de apenas 15 minutos logo no início da Trasladação, voluntários da Cruz Vermelha fizeram três intervenções para socorrer devotos, tirando-os do local em macas.

Com 42 anos, o segurança André Almeida diz, com orgulho, que “vai na corda” há 22 anos. Afirma nunca ter se machucado ou sofrido um desmaio. Uma hora e meia antes da procissão de sábado, ele já estava com a mão direita na corda e o rosto completamente molhado. Mais do que os 28ºC, tanto suor era provocado pelo constante zigue-zague dos corpos colados um ao outro.

“Nós, paraenses, esperamos o Círio durante todo o ano”, afirmou Almeida.

A engenheira florestal Regina Meirelles, 38, já acompanhou o evento segurando a corda por nove anos, mas neste domingo (8) cumpria promessa de outro modo. Seguia de joelhos o trajeto entre a Catedral da Sé e a Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, percurso de cerca de 5 km.

Às 5h10, ela já estava há 40 minutos movimentando-se sobre tiras de papelão, que ajudam a amenizar a dor nos joelhos. Àquela altura, ela tinha pelo menos três horas pela frente para chegar à Basílica.

“Tudo está resumido a uma só palavra, fé”, respondeu Regina ao ser indagada sobre a importância do Círio. “Minha fé aumenta a cada ano.”

Moradora de Belém, ela pagava uma promessa pela recuperação do irmão, que havia passado recentemente por um transplante de rim.

Cinco pessoas auxiliavam Regina pelo asfalto da cidade. Ana Paula, filha dela, estava entre elas, correndo de um lado para o outro, levando os pedaços de papelão para a passagem da mãe. Era assim, esbaforida e rezando, que a jovem começava seu dia de aniversário. Neste domingo (8), Ana Paula completou 18 anos.

*Os jornalistas Naief Haddad e Bruno Santos viajaram a convite da Varanda de Nazaré.

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